domingo, 15 de julho de 2007

Travessia dos Sentidos

Estava para findar e queria um faz de conta. Pediu para a filha encontrar nos arredores alguém que soubesse escrever. Escutar.
O cachorro morava embaixo da cama há uma semana. E há quatro dias recebia comida na bandeja. Tinha um olhar sem brilho que agora guiava os últimos dias daquela casa.
Havia ao redor apenas uma pessoa capaz de pintar letras em algum papel. Porque o lugar era pequeno e o sertão prosperava em mãos desacertadas. O vaguear.
O cão soube antes dele entrar e fechou os olhos. Se soubesse teria tapado os ouvidos.
Arrumaram uma cadeira e a colocaram do lado direito da cama. Dava para a janela. Ele sentou-se e a filha o anunciou num cochicho. A velha pediu lugar ermo. Silenciou. O chachorro procurou pela sombra mais fresca sob a cama e gemeu.
A janela perecia transpirar. E era quase bonito ver aquela chuva inventada cair, lavar.

Eu faço noventa e sete anos amanhã, mas ninguém sabe qual é a data certa. Diziam que era 25 de dezembro. Mas quem falava isso morreu. Eu não gosto. Acho que da vida que a gente leva pouco importa as datas. Tive sete filhos, cinco vingaram. Os outros dois morreram das desgraças dessa vida. Tudo criança. Eu fiz de enterrar e dei oração. Tinha vela em casa e durou sete dias. Criança não devia poder morrer. Ninguém nunca soube que eu perdi outros dois. Ele soube e olha que foi sujeito ruim. Batia nas crianças, era capeta com os bichos do meu pai, acho que foi criando rachaduras no peito com os anos.
O primeiro que perdi não perceberam, nem ele. Já o segundo foi revelação. Fazia calor elaborado que doía no corpo da gente e sufocava os poros. Eu deitei, ele dormia. Senti aquilo negro e viscoso escorrer pela perna e a dor que veio junto foi perturbação. Tentei conter o choro que era pura tristeza, mas veio de um jeito que rompeu. Ele virou e quando percebi estava de olhos abertos. Eu não disse uma palavra, fiquei de pele alvoroçada. Achei que o homem fosse ter ataque, acordar a casa toda. E assim, sem jeito, beijou a minha testa e fez com a cabeça que ia ficar tudo bem.
Criei saliva na boca e os olhos encheram. O choro cresceu tantas coisas e sentimentos dentro de mim que eu não sabia o que fazer. Verdade pensei "tá doido, será?". Depois entendi que era mudança. E mesmo que se tivesse durado aquele fragmento de tempo famigerado, já tinha valido. Porque o meu coração de mulher ficou que não cabia de transbordado.
E tem gente que acha que só ganhar filho transborda. Não, errado. As pessoas de hoje não sabem. Perder também transpassa outros descobrimentos e carrega para um outro estado. Queria que as minhas meninas soubessem de mais coisas que existem e podem existir. Do que machuca e nem sempre são pedras. Dos que afagam e têm nas mãos espinhos. Quê vai ser dos meus netos? Tudo perdido. Meninos interrompidos. Faz tempo que não escutam as minhas histórias. Agora, o cão vê.
Quando o homem me levou para passear na cidade um pouco depois da noite iluminar, eu vi uma cena que ficou pra sempre comigo. Era uma moça jovem, toda de preto, cega. Ela vinha guiada por um cachorro de pêlo negro, grande. Parecia gente de bens. O homem não entendeu o meu fascínio. Eu fiquei alí olhando todo aquele momento que a gente custa a acreditar. E o bicho conduzia a moça magistral. Dava um misto de aperto e alegria. E ela, a moça, andava entregue, leve. Igual quando criança brinca de jogar o corpo confiando que o outro vai segurar. Eu tive um namoradinho bem menina que me segurou.
E a moça era um encantamento, e sem ver. E sem medo. Eu parecia a única pessoa a contemplar. Andamos vendo demais. E perdeu a vista quando? Perdas que trazem redenção e aproximam.
Eu vi o homem renascer. Da cama do meu quarto dá para sentir quando ele sorri, dá para tocar o sorriso quando ele olha nos olhos dos netos tão distantes, crescidos.

A chuva era corrente nos olhos do homem. Ele parou de escrever e foi chamar uma das filhas. O cachorro olhava através das janelas. E o papel, da alma.

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Copyright 2007 | Maria Rita Casagrande